A Reforma Tributária não muda apenas a forma de calcular os tributos sobre o consumo, mas também introduz uma nova forma de recolhimento: o split payment. Com ele, parte do IBS e a CBS poderá ser separada no momento em que o cliente fizer o pagamento.
Para o dono de oficina mecânica, isso traz uma questão prática: depois que o cliente pagar, quanto desse dinheiro realmente vai ficar disponível no caixa?
Ao longo deste artigo, você vai entender como funciona o split payment, quais operações podem ser afetadas por esse mecanismo e quais impactos ele pode trazer para o fluxo de caixa, o capital de giro e o planejamento financeiro da oficina.

Conteúdo deste post
- O que é split payment e como ele funciona na prática?
- O split payment vai aumentar o imposto pago?
- Como o split payment pode afetar o caixa da oficina?
- O que muda no capital de giro
- O impacto do split payment nas formas de pagamento da oficina
- O split payment e o sistema de créditos tributários
- O que é preciso mudar no gerenciamento do fluxo de caixa?
- O que a oficina deve começar a controlar para a chegada do split payment
- O sistema de gestão da sua oficina está preparado para essa mudança?
O que é split payment e como ele funciona na prática?
Em linhas gerais, o split payment, ou pagamento dividido, é uma forma de recolher o IBS e a CBS diretamente no momento da liquidação do pagamento. Sua regulamentação é uma das principais novidades da Reforma Tributária e está disposta nos artigos 31, 32, 33, 34 e 35 da Lei Complementar nº 2014/2025.
Na prática, quando uma operação estiver sujeita a esse mecanismo, o sistema de pagamento poderá separar uma parte para recolher o IBS e a CBS e outra parte para disponibilizar à oficina. Dessa forma, o dinheiro não vai passar necessariamente inteiro pelo caixa da empresa.
Esse novo fluxo de identificação e recolhimento pode ser representado desta forma:
Serviço da oficina → emissão do documento fiscal → pagamento do cliente → sistema identifica a operação → IBS/CBS é separado → saldo é liberado para a oficina.
É importante destacar que o split payment não é um novo imposto. Ele é apenas uma forma diferente de recolher o IBS e a CBS.
Além disso, esse mecanismo não será aplicado automaticamente a todas as vendas da oficina. Sua implantação será gradual e dependerá das regras da operação, do tipo de cliente e do meio de pagamento utilizado.
O split payment vai aumentar o imposto pago?
Não necessariamente. O split payment não cria, por si só, um novo imposto ou uma nova alíquota. Ele muda principalmente a forma e o momento do recolhimento do IBS e da CBS.
Nesse sentido, é importante separar duas perguntas: quanto a oficina deve de imposto? e quanto dinheiro fica disponível no caixa?
A resposta da primeira depende das regras de cálculo, das vendas, das compras e dos créditos permitidos; a da segunda, do momento do recebimento, da forma de pagamento, das taxas e dos valores separados para os tributos. Dessa forma, a oficina pode não pagar mais imposto, mas ainda assim ter menos dinheiro disponível entre o recebimento e o pagamento das despesas.
Como o split payment pode afetar o caixa da oficina?
Atualmente, em muitas situações, o cliente paga e o valor entra na conta da empresa. O imposto é calculado e pago depois, conforme o prazo aplicável para cada caso.
Já com as operações sujeitas ao split payment, o imposto é recolhido no momento do pagamento pelo serviço prestado pela oficina, de forma que apenas o valor restante desse recolhimento fica disponível para a oficina.
Novamente, isso não quer dizer necessariamente que a oficina vai pagar mais imposto. O que muda principalmente é quando o dinheiro sai do domínio da empresa: ele deixa de ser recolhido em um momento posterior, após a apuração pela contabilidade e passa a ser coletado automaticamente no momento em que a transação financeira ocorre.
Para uma oficina pequena ou média, essa diferença pode ser importante, já que o dinheiro das vendas costuma ser usado para comprar peças, pagar fornecedores, salários e custos operacionais ou manter uma reserva para despesas inesperadas. Logo, se uma parte do recebimento já for separada para o imposto, o valor disponível para essas despesas será imediatamente menor.
O que muda no capital de giro
Como voê já sabe, o capital de giro é o dinheiro necessário para a oficina continuar funcionando enquanto recebe dos clientes e paga suas despesas. O problema para o seu controle geralmente aparece quando existe diferença entre:
- o dia em que a oficina recebe,
- o dia em que precisa pagar fornecedores e despesas e
- o dia em que os impostos são recolhidos.
Em relação às obrigações tributárias, em algumas situações, o dinheiro do imposto fica temporariamente no caixa da empresa até o momento do seu pagamento. Com o split payment, nas operações alcançadas pelo mecanismo, essa parte poderá ser separada já no pagamento do cliente.
Dessa forma, a oficina poderá ter menos dinheiro disponível entre o recebimento da venda e o pagamento das despesas, assim exigindo mudanças na forma de administrar prazos, valores e formas de pagamento para o seu funcionamento.
Onde esse impacto pode aparecer?
O efeito pode ser percebido principalmente quando a oficina:
- compra peças antes de receber do cliente,
- vende parcelado,
- recebe por cartão,
- tem muitos serviços em andamento,
- trabalha com margens apertadas,
- mantém estoque de peças,
- precisa pagar fornecedores à vista,
- tem folha de pagamento elevada e/ou
- possui mais de uma unidade e transfere recursos entre oficinas.
Para quem tem duas ou três oficinas, o controle precisa ser ainda mais cuidadoso, já que o caixa de cada uma pode estar sujeito a situações diferentes em determinado período. Uma unidade, por exemplo, pode estar com dinheiro disponível, enquanto outra pode precisar de recursos para pagar fornecedores ou salários.
O impacto do split payment nas formas de pagamento da oficina
Cartão de crédito
Nas vendas com cartão de crédito, o IBS e a CBS poderão ser separados no momento em que a transação for liquidada pela instituição de pagamento. Assim, a oficina não vai necessariamente receber o valor bruto da venda: o tributo será separado antes da disponibilização do saldo, juntamente com eventuais tarifas da operadora.
Nas vendas parceladas, a separação do imposto tende a acompanhar a liquidação das parcelas, de forma proporcional a cada recebimento.
Cartão de débito
Já no cartão de débito, como o pagamento costuma ser liquidado de forma mais imediata, a separação do IBS e da CBS poderá ocorrer no próprio momento da liquidação da compra.
Na prática, o valor disponibilizado à oficina poderá ser o valor da venda menos o tributo recolhido e as tarifas aplicáveis ao meio de pagamento.
Pix
Nas operações realizadas por Pix, o impacto vai depender da forma como a transação for identificada e integrada aos sistemas de pagamento e ao documento fiscal.
Quando a operação estiver submetida ao split payment, o IBS e a CBS poderão ser separados antes que o valor seja disponibilizado integralmente à oficina. Por isso, mesmo que o dinheiro entre rapidamente na conta, o valor líquido disponível poderá ser menor que o valor pago pelo cliente.
Boleto e transferência bancária
No boleto e na transferência bancária, o tratamento vai depender das regras de implementação e da possibilidade de vincular o pagamento à operação e ao documento fiscal.
Em regra, o prestador do serviço de pagamento deverá identificar a transação, relacioná-la ao documento fiscal e segregar o valor correspondente aos tributos antes de disponibilizar o saldo à oficina.
Quando não for possível realizar essa vinculação ou quando a operação não estiver incluída nessa etapa de implementação, o recolhimento seguirá outro procedimento previsto na legislação, sem que o banco ou a instituição de pagamento retenha automaticamente o valor apenas por se tratar de boleto ou transferência.
Dinheiro
Já nas vendas pagas em dinheiro, não há uma instituição de pagamento realizando a liquidação eletrônica da transação. Por isso, o recolhimento tende a seguir o procedimento aplicável à apuração regular, sem a mesma separação automática que pode ocorrer nos principais meios eletrônicos alcançados pelo split payment.
Importante: isso não significa que o imposto deixe de ser devido, e sim que o momento e a forma de recolhimento podem ser diferentes.
O split payment e o sistema de créditos tributários
O split payment e o sistema de créditos tributários atuarão em momentos diferentes, mas precisarão ser acompanhados em conjunto.
O split payment separa e recolhe o IBS e a CBS no momento da liquidação de determinadas vendas. Já os créditos tributários são gerados, conforme as regras aplicáveis, nas compras e aquisições feitas pela oficina, como peças, materiais e serviços. Dito isso, na prática, o financeiro deverá controlar:
- o IBS e a CBS incidentes sobre as vendas,
- os valores já separados pelo split payment,
- os créditos gerados nas compras e
- o saldo de imposto ainda devido ou passível de compensação.
De forma simplificada, o cálculo se baseia na seguinte lógica geral:
Imposto das vendas – créditos permitidos das compras – valores já recolhidos = saldo a pagar ou a ajustar
Isso significa que o valor separado automaticamente pelo split payment não substitui o controle dos créditos tributários. A oficina ainda vai precisar registrar corretamente suas aquisições e verificar quais delas permitem o aproveitamento de créditos.
Para evitar divergências, o sistema financeiro e fiscal deverá relacionar cada venda, pagamento, documento fiscal, compra e crédito correspondente. Assim, o responsável pelo financeiro vai poder saber quanto foi faturado, quanto de imposto incidiu, quanto já foi recolhido pelo split payment e qual saldo permanece na apuração.
O que é preciso mudar no gerenciamento do fluxo de caixa?
Em linhas gerais, o principal cuidado é não tratar todo o faturamento como dinheiro disponível. Isso significa tomar as seguintes medidas:
1. Fazer o fluxo de caixa pelo valor líquido
Nessa lógica, o controle deve mostrar quanto foi vendido e quanto realmente entrou depois de:
- IBS e CBS separados,
- taxas do cartão,
- antecipações,
- estornos,
- cancelamentos e
- outras despesas do recebimento.
2. Separar venda realizada de dinheiro recebido
Uma venda feita hoje pode ser recebida em várias parcelas. Desse modo, o financeiro deve controlar:
- data da venda,
- data de cada parcela,
- valor de cada parcela,
- valor líquido recebido e
- valor separado para os tributos.
3. Não usar dinheiro de imposto para pagar despesas
Se o imposto não for separado automaticamente, a oficina deverá reservar esse dinheiro. O ideal é tratar o valor do imposto como um compromisso, e não como dinheiro livre para pagar contas.
4. Para as redes de oficinas, controlar cada unidade separadamente
Quem tem mais de uma oficina deve acompanhar:
- faturamento por unidade,
- recebimentos por unidade,
- despesas por unidade,
- impostos por unidade e
- transferências entre as unidades.
Misturar tudo em uma única conta pode dificultar a identificação de qual oficina está gerando caixa e qual está consumindo recursos.
5. Simular meses de maior aperto
O financeiro deve testar situações como aumento das vendas parceladas, queda nas vendas à vista, aumento das compras de peças, atraso de clientes, necessidade de antecipar recebíveis, pagamento de férias e décimo terceiro, compra de equipamentos e abertura ou reforma de uma unidade.
O objetivo em todas essas simulações é descobrir se a oficina conseguirá pagar suas contas mesmo com uma parte dos recebimentos sendo separada para os tributos.
O que a oficina deve começar a controlar para a chegada do split payment
Antes da implantação completa do mecanismo de split payment, o dono da oficina e o responsável pelo financeiro devem organizar alguns controles básicos para preparar seu fluxo de caixa:
- vendas por forma de pagamento,
- vendas à vista e parceladas,
- recebimentos previstos,
- recebimentos efetivos,
- taxas de cartão,
- antecipações de recebíveis,
- cancelamentos e estornos,
- notas fiscais emitidas,
- compras de peças e materiais,
- créditos tributários,
- impostos separados ou pagos e
- fluxo de caixa por unidade.
Também é importante conferir se o sistema de gestão consegue relacionar ordem de serviço, nota fiscal, pagamento, parcela, recebimento, imposto e conta bancária. Se essas informações ficarem separadas em planilhas, sistema do cartão, sistema financeiro e sistema contábil, será mais difícil identificar erros e saber quanto dinheiro a oficina realmente tem disponível.
O sistema de gestão da sua oficina está preparado para essa mudança?
Já ficou claro que, para o dono da oficina, a principal preocupação com a Reforma Tributária e a entrada do split payment não deve ser apenas saber quanto vendeu. Desse modo, é fundamental que o dono de oficina conte com um sistema de gestão que ajude a responder questões como quanto foi vendido, já foi recebido ou ainda falta receber, bem como quanto foi separado para IBS e CBS e quanto entrou efetivamente na conta.
Quanto mais integradas estiverem essas informações, mais fácil será entender o impacto das novas regras sobre o caixa da oficina e tomar decisões financeiras com base no dinheiro que realmente está disponível.
Para ajudar você nesse processo, o sistema Oficina Inteligente centraliza a gestão da oficina em um único sistema, conectando informações de vendas, ordens de serviço, estoque, financeiro e recebimentos.
Pronto para dar o primeiro passo e se preparar para as mudanças da Reforma Tributária? Conheça o sistema Oficina Inteligente e descubra como organizar a gestão financeira da sua oficina em um só lugar.